11. «O Livro da Selva» e a perda da inocência
Ouvi há pouco na TSF que já lá vão 10 anos do reconhecimento oficial das gravuras do Côa. Não me lembrava exactamente da data, mas recordo bem o período conturbado do Verão de 1994 com os jornais para cá e para lá a noticiar a opinião e contra opinião de sábios, políticos e sociedade em geral. Lembro-me também do impacto que todo esse processo teve na formação de tantos jovens estudantes de arqueologia, meus pares.
Foi mais ou menos nessa altura que me licenciei e recebi como simpática prenda de um amigo “O Livro da Selva” de Kipling, numa deliciosa referência à especialidade em que então me iniciara (arqueozoologia ou zooarqueologia… deixo este debate vocabular para outro post). Escrevia, esse meu amigo, na primeira folha, qualquer coisa alusiva à minha ainda inocência nos meandros da arqueologia, inocência e sonho que ele esperava que eu não perdesse, apesar de estar crente de que tal fosse quase inevitável.
Em certa medida todo o processo do Côa marcou, e marca ainda, uma geração (talvez mais que uma!). Sonhos… alguns feitos desilusões, outros nem por isso (afinal, considero-me uma optimista). O mais recente panorama deste processo d.C. (depois do Côa, como já alguém disse) é, efectivamente, desértico. As já por si escassas verbas que a arqueologia (leia-se IPA) tinha para funcionar foram ainda mais reduzidas. Obras prometidas teimam em avançar. E até já a minha universidade obstina em se juntar, paulatinamente, a essa desertificação que teima em tomar conta também dos meios académicos da arqueologia (já por si muito aquém do que deviam fazer).
Recebi recentemente a notícia que muito possivelmente o reitor da Universidade não irá afectar nenhum dos antigos espaços, libertos pela construção do novo edifício da Faculdade de Economia, à minha faculdade. Deste modo, não há novos laboratórios de arqueologia… e continuaremos todos encafuados no escasso espaço laboratorial existente que para tudo serve: restauro, aulas, investigação, trabalhos de seminário e até reuniões de departamento!
Tais deambulações servem antes de mais para deixar aqui expresso o meu espanto com a dicotomia da investigação científica e gestão cultural no nosso país… Podemos recorrer a dinheiros comunitários para trazer até nós colaboradores estrangeiros ou para financiar a formação avançada de docentes. Podemos até vangloriarmo-nos de sermos pioneiros na consagração do património face a algumas exigências económicas… Mas, depois, não há verbas para a investigação, não há verbas para a manutenção básica da gestão do património (por exemplo, acho absolutamente escandalosa a situação em que algumas das ET’s do IPA se encontram com um arqueólogo a ter que dar conta de um território enorme!) e… nem sequer há espaços para que possamos trabalhar condignamente e fazer o melhor pela formação dos nossos alunos. Esta dicotomia relembra-me o que um colega ainda outro dia desabafou: as pessoas podem ir a um hipermercado comprar 6 copos por 3 euros e pensam que isso lhes traz qualidade de vida. Estaremos nós convencidos que lá por termos alguns dinheiros comunitários nos tornámos um país de topo no que se refere à ciência, à educação e à cultura?!
Meu querido amigo: acho que perdi a inocência. Quantos andarão por aí como eu?


2 Comments:
Subscrevo inteiramente as palavras deste 'post'. A questão dos fundos comunitários tem sido a nossa ilusão (e perdição) permanente. P. ex, nos últimos anos a FCT tem atribuído milhares de bolsas de formação avançada, muitas delas fora do país. Mas os resultados efectivos estão à altura do investimento? Os ex-bolseiros conseguem encontrar por cá condições de trabalho e estímulo para conseguirem alterar o 'status quo' e abanar o marasmo reinante? A verdade é que um nº. crescente nem sequer consegue já encontrar trabalho em Portugal - essa é que essa!
DK
Podemos sempre - daqui a uns anos - fazer algo à laia do que a Bette Davis fez no fim de carreira:
«Bolseiro da àrea X (mestrado, doutoramento e pós-doc) procura bolsa para iniciar reforma».
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