quarta-feira, fevereiro 09, 2005

72. Manuel Heleno e os palimpsestos

Tenho estado no MNA a (re-)analizar algumas colecções provenientes de escavações efectuadas pelo Manuel Heleno nos anos 30 e 40.

Já é um tema batido nos bastidores da arqueologia portuguesa, mas efectivamente o Heleno devia ser um homem de espírito muito (mesmo muito) torcido. Há quem o defenda, e eu até posso acreditar (em alguns raros momentos) que o senhor teria virtudes… mas, livra!, quando leio os cadernos de campo dele apenas penso: que pena tenho eu que o senhor tenha posto o seu colherim neste sítio. Não era só uma questão de feitio; mais que isso, era uma questão de metodologia (ou falta dela).

Os vários sítios das Bocas em Rio Maior (e suspeito que a maioria dos locais que escavou) são disso emblema: três a quatro nomes para o mesmo local (e quem consegue identificá-los todos?), estratigrafias confusas (basta pensar que o senhor classificava os estratos ao contrário: a camada 4 é a da superfície e a camada 0+ (?!) é a do fundo! Nada como a interpretação substituir – totalmente – a observação) e organização errática dos materiais. Isto para não falar da quase certa escolha, em amostra qualitativa, dos mesmos.

Se a isso acrescentarmos aquilo a que alguns chamam de «erosão dos museus» (i.e. a crescente desordem que determinada colecção em depósito num museu vai sofrendo, à qual os investigadores que sucessivamente a estudam muitas vezes não são alheios), estudar as colecções do Heleno são uma imensa dor de cabeça.

Por isso mesmo, o MNA resolveu, em boa hora (já o devia ter feito antes!), organizar de vez as colecções do Heleno. Começou, exactamente, pelo mais difícil: Bocas. Para isso conta com o trabalho de várias jovens colaboradoras, algumas delas recém licenciadas, o que sem dúvida lhes dará um traquejo invulgar no reconhecimento de materiais arqueológicos. Sabem uma coisa?! Ainda bem que por isso optaram… para tão ingrata e árdua tarefa os neurónios tem que ser muito fresquinhos. Eu, que não sou ainda um fóssil, já não aguentava a empreitada.

Infelizmente tal não impede que, à medida que vou estudando as colecções, sucessivamente me ocorra uma pergunta: servirá para alguma coisa?! Já não basta as grutas serem em geral palimpsestos... que confiança poderemos ter em dados tão "remexidos" (mesmo antes de darem entrada no depósito)? Cá tenho para mim que, no fim, se safarão as listas taxonómicas... ou esperar mais uns largos anos e datar os restos um a um!

***

Post-script: A propósito de datações... parece que o "nosso" laboratório de C14 está a recomeçar com a força toda, agora que o Monge Soares se prepara para defender a tese de doutoramento (aqui mesmo ao lado da FCHS). Força!

6 Comments:

At 11:53 da manhã, Anonymous Anónimo said...

O Manuel Heleno era um escavador a m3, quando estava presente.
Sou de Rio Maior e a minha área de investigação é esta região, riquissima e tão pilhada.
Conheço pessoalmente o grandebraço direito de Heleno e sei, por ele, que muitas vezes trabalhava sozinho com alguns homens contratados, enviando o espólio recolhido para Lisboa, com uma carta a descrever os trabalhos realizados.
Por outro lado não sei até que ponto será mais destrutivo para Rio Maior e em regra geral para o País, se os Maneis Helenos ou o poder local que sistemáticamente destroi ou promove a destruição de centenas de sítios arqueológicos.
Pelo menos com Heleno ainda nos ficou o espólio. Mas com o poder local e central apenas a destruição.
Nunca vamos conseguir ser uma classe respeitada e unida vamos ser sempre vistos como meros lixeiros (do passado), seres inconvenientes e que só servem para atrapalhar.
Espero o dia em que a arqueologia e o arqueólogo estejam equiparados aos engenheiros e arquitectos e a sua palavra tenha de facto peso e não seja contronável.
Nesta região em que trabalho e resido é detentora de cenários dramáticos.
Espero melhores dias

um abraço, e tenha paciência e carinho com as coleções de Rio Maior

Carlos Pereira

 
At 8:12 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Não costumo fazer comentários aos posts dos blogs por onde vagueio. Mas desta vez apetece-me, sabe-se lá porquê.
No passado ano lectivo, dediquei-me ao estudo de alguns materiais arqueológicos escavados por Manuel Heleno no concelho de Coruche, no longínquo ano de 1933. Fi-lo por imperativos "académicos", pela necessidade de elaborar um "Relatório Final", no âmbito da Licenciatura em História, variante de Arqueologia, da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Sim, o senhor era uma pessoa desorganizada, que trabalhava de uma forma caótica. Sim, não catalogou os materiais, depositou-os apenas no então Museu de Etnologia e continuou alegremente (ou não) a sua vida de investigador, director de museu, blá, blá, blá...
No entanto, há que formular uma questão: e se ele não os tivesse extraído de todo? Estariam ainda à nossa espera ou, pelo contrário, ter-se-iam perdido para sempre? O que seria de tantos artefactos talhados pelos nossos antepassados primitivos, nas "mãos" dos Avelino Torres e outros que tais, homens-mais-que-primitivos do nosso triste presente?
Deixo a questão no ar... A meu ver, é melhor que Heleno os tenha recuperado.Bem ou mal, chegaram até nós. Isso é, indiscutivelmente, o mais importante.
Os meus melhores cumprimentos.

 
At 8:17 da tarde, Blogger Heimatlos said...

Não costumo fazer comentários aos posts dos blogs por onde vagueio. Mas desta vez apetece-me, sabe-se lá porquê.
No passado ano lectivo, dediquei-me ao estudo de alguns materiais arqueológicos escavados por Manuel Heleno no concelho de Coruche, no longínquo ano de 1933. Fi-lo por imperativos "académicos", pela necessidade de elaborar um "Relatório Final", no âmbito da Licenciatura em História, variante de Arqueologia, da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Sim, o senhor era uma pessoa desorganizada, que trabalhava de uma forma caótica. Sim, não catalogou os materiais, depositou-os apenas no então Museu de Etnologia e continuou alegremente (ou não) a sua vida de investigador, director de museu, blá, blá, blá...
No entanto, há que formular uma questão: e se ele não os tivesse extraído de todo? Estariam ainda à nossa espera ou, pelo contrário, ter-se-iam perdido para sempre? O que seria de tantos artefactos talhados pelos nossos antepassados primitivos, nas "mãos" dos Avelino Torres e outros que tais, homens-mais-que-primitivos do nosso triste presente?
Deixo a questão no ar... A meu ver, é melhor que Heleno os tenha recuperado.Bem ou mal, chegaram até nós. Isso é, indiscutivelmente, o mais importante.
Os meus melhores cumprimentos.

 
At 8:17 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Não costumo fazer comentários aos posts dos blogs por onde vagueio. Mas desta vez apetece-me, sabe-se lá porquê.
No passado ano lectivo, dediquei-me ao estudo de alguns materiais arqueológicos escavados por Manuel Heleno no concelho de Coruche, no longínquo ano de 1933. Fi-lo por imperativos "académicos", pela necessidade de elaborar um "Relatório Final", no âmbito da Licenciatura em História, variante de Arqueologia, da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Sim, o senhor era uma pessoa desorganizada, que trabalhava de uma forma caótica. Sim, não catalogou os materiais, depositou-os apenas no então Museu de Etnologia e continuou alegremente (ou não) a sua vida de investigador, director de museu, blá, blá, blá...
No entanto, há que formular uma questão: e se ele não os tivesse extraído de todo? Estariam ainda à nossa espera ou, pelo contrário, ter-se-iam perdido para sempre? O que seria de tantos artefactos talhados pelos nossos antepassados primitivos, nas "mãos" dos Avelino Torres e outros que tais, homens-mais-que-primitivos do nosso triste presente?
Deixo a questão no ar... A meu ver, é melhor que Heleno os tenha recuperado.Bem ou mal, chegaram até nós. Isso é, indiscutivelmente, o mais importante.
Os meus melhores cumprimentos.

 
At 8:19 da tarde, Blogger Heimatlos said...

As minhas sinceras desculpas pela repetição de posts... Justifico-o com a inexperiência bloguística...
Entschuldigung...

 
At 8:29 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Bonjour, estopadasarqueologicas.blogspot.com!
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